Sociodrama com crianças

Sociodrama com Crianças

a partir de modulo co  Luciano Moura – Maio 2014

“As pesquisas de Moreno sobre o sociodrama e sua relação com o psicodrama, dizem respeito à encruzilhada formada pelas vias do individual, do grupal e do social. Esta é a razão de Moreno ter acentuado que o psicodrama se ocupa do individual, e o sociodrama, do grupal.

Sabemos que assim é, mas sabemos também que ninguém pode ocupar-se do individual, sem ocupar-se, ao mesmo tempo do social e vice-versa (Mário J. Buchbinder).

“O verdadeiro sujeito de um sociodrama é o grupo”.

“… É o grupo, como um todo, que tem de ser colocado no palco para resolver os seus problemas, porque o grupo, no sociodrama, corresponde ao indivíduo no psicodrama”.

Especificidade do trabalho com crianças:

  • “O trabalho do Diretor  deve ser basicamente, aquecer o grupo, para que eles interajam o mais livremente possível”
  • a própria interação dos membros do grupo é bastante intensa e produz muitos resultados…”
  • os comentários devem ser mais reduzidos do que em outros Psicodramas terapêuticos.”

“No Sociodrama o Diretor deve visar sempre a dinâmica de grupo e não se ater a um protagonista de forma fixa, tentando simplesmente corrigir determinado comportamento, mas trabalhar sempre na interação do grupo”. “O protagonista é sempre o grupo”.

“É evidente que quando existe uma situação grupal em que um individuo traz um tema, esse indivíduo pode dramatizar, mas na fase de comentários, o tema deve ser sempre levado a todos….ampliando-se as dificuldades para todos em situações semelhantes”.

“A tendência do Psicodrama com crianças é mais de carácter sociodramático”…

“frequentemente é necessário incluir todos os elementos do grupo no contexto dramático, num funcionamento mais lúdico e sociodramático.

 

Origem do Psicodrama

  • A brincadeira de “ser Deus” do jovem Moreno

“Moreno conta que aos 4 anos e meio organizou uma brincadeira com algumas crianças no porão da sua casa, empilhando cadeiras sobre uma mesa, até o teto, para brincar de ser Deus: os seus amigos faziam o papel de anjos e incentivavam para que ele voasse até o chão, ação dramática assumida pelo pequeno protagonista embalado pelos sonhos de ser Deus. O resultado imediato foi uma fratura no braço. A longo prazo, essa experiência é tomada como uma Cena precursora da criação do Psicodrama.

Moreno ao mesmo tempo em que dirige a cena, transforma-se em autor e ator do drama. O seu público compartilha e estimula o protagonista à ação.”

  •  Jogos de improviso com crianças nos jardins de Viena na década de 1910, com brincadeiras de “faz-de-conta”.

“…contato com pequenos grupos de crianças, nos jardins de Viena, onde propõe e improvisa brincadeiras, distribuindo-lhes papéis.” “

realiza em 1911, no Kindergarden, um Teatro de Crianças, a sua primeira sessão de Teatro Espontâneo, ainda como estudante”.

“…concebe algumas ideias a respeito das estruturas grupais e do efeito terapêutico do grupo sobre o indivíduo.” “…a importância da liberdade, espontaneidade e criatividade” “…o mandamento: Sê Espontâneo”.

Segundo Moreno: “o desempenho de papéis favorece a espontaneidade e a criatividade”.

  • Espontaneidade: (latim, sua sponte = do interior para o exterior)
    • A resposta adequada a uma nova situação, ou 
    • a resposta nova a uma situação antiga

“…1º Ato Público Psicodramático, no dia 1 de abril de 1921, dia dos loucos, na Áustria, dia da mentira, para nós. “…propôs como tema dramático a escolha do Rei da Áustria e conseguiu vários voluntários para encená-lo… “…estavam a ser lançadas as bases para o enquadre do Sociodrama…”.

“…passa a realizar improvisações espontâneas com um grupo de atores profissionais, até descobrir que a representação espontânea de situações da vida quotidiana produzem efeitos terapêuticos (1924). “…Descobriu os efeitos terapêuticos do seu manejo técnico e passou a designar o seu Teatro Espontâneo como Teatro Terapêutico.”

“…definiu diferentes enquadres psicodramáticos.

  • Teatro de Improviso, onde o drama é encenado da forma como surge, com atores e protagonistas espontâneos;
  • o Teatro Terapêutico, onde existe um conflito a ser trabalhado e as pessoas representam a própria vida…”.

“ …a primeira demonstração pública do Psicodrama,…passa a dirigir sessões de Psicodrama Público,….

Publica, em 1934, Quem Sobreviverá? reeditado posteriormente com o nome de Fundamentos da Sociometria……são bem acolhidos pela comunidade científica americana, praticados e desenvolvidos”.

“Disseminação do Psicodrama…a partir de 1946, o Psicodrama de Crianças começa a expandir-se na França…”

“…entre 1969 e 1970 o Psicodrama desenvolveu-se rapidamente, tanto na Argentina, sob a liderança de Jaime Rojas-Bermúdez (criador da Teoria do Núcleo do Eu), quanto no Brasil, inicialmente através de Alfredo Correia Soeiro, (formado por Rojas-Bermúdez). “…surgiram divergências teóricas…”.

Moreno, coloca a ênfase na importância terapêutica do grupo, como promotor do relacionamento interpessoal:

  • – favorecendo o desempenho, a reflexão sobre as atitudes…
  • – permitindo experimentar a mudança, lidar com os sentimentos e conflitos que emergem nos grupos,

tratando-se assim de um processo de interação estimulador da autoconsciência e do desenvolvimento pessoal e social.

MATRIZ DE IDENTIDADE – segundo Moreno, é a placenta social da criança, o locus em que ela mergulha as suas raízes”.

Na evolução da criança, a Matriz está ligada aos processos fisiológicos, psicológicos e sociais, refletindo a herança cultural na qual está inserida, que a prepara para a sociedade, ou seja, é o primeiro processo da aprendizagem emocional da criança (assimilação e desenvolvimento dos papéis que desempenhará na relação com o mundo).

Matriz de Identidade – 3 fases:

1ª fase: IDENTIDADE DO EU(EU – COMIGO) EU – EU Duplo
2ª fase: RECONHECIMENTO DO EU(EU E O OUTRO) EU – TU Espelho
3ª fase: RECONHECIMENTO DO TU(EU COM O OUTRO) EU – ELE Inversão de papéis
  • Identidade do eu (duplo) – indiferenciação

  • Reconhecimento do eu (espelho) – perceção da separação do outro

  • Reconhecimento do tu (inversão de papeis) – capacidade de se colocar no papel do outro.

  •  Pretende-se, utilizando técnicas psicodramáticas, ajudar a pensar e a ultrapassar os problemas, facilitando o confronto e a troca de diferentes experiências, promovendo o insight, a diminuição de resistências e de ansiedades.
  •  O Psicodrama corresponde a uma terapia individual feita em grupo, em que a técnica utilizada se baseia na dramatização (“como no teatro”) → com a representação de situações, histórias, vivências…, partilhadas por todos os elementos presentes no grupo (todos estão presentes, mesmo que não representem).
  • Procura-se favorecer a aprendizagem de competências pessoais e sociais e de estratégias alternativas para lidar com as situações [Símbolo] num espaço de tolerância, de confiança, estimulante e contentor das emoções.
  •  O objetivo da terapia prende-se com “a melhoria do bem-estar psicológico”

O grupo terapêutico, pode permitir abordar questões de difícil verbalização, atuando como um fator promotor da mudança, da construção de competências, do crescimento emocional.

  •  A coesão grupal permite sem dúvida um trabalho psicoterapêutico com resultados mais satisfatórios.

Indicações para G.T. com crianças

Depende do que o Diretor se propõe trabalhar…

Esta abordagem psicoterapêutica pode destinar-se a crianças que apresentem… (ex: perturbações da esfera psicoafectiva e relacional, especialmente com patologia ansiosa, evidenciando sintomas como: inibição, imaturidade afetiva, dificuldades relacionais, angústia de separação, fobias, ansiedade social, perturbação depressiva com manifestações ansiosas.

Podem no entanto ser excluídos casos → ex: de debilidade mental, psicoses e perturbações do comportamento que possam colocar em risco o funcionamento do grupo.

Outras indicações são possíveis…

Na escolha do grupo (depende do que o Diretor se propõe trabalhar…)  pode ser desaconselhável, quer um grupo demasiado homogéneo, quer demasiado heterogéneo.

Admissõessugestões

  • As propostas para o Grupo são feitas pelo Médico Assistente e posteriormente avaliadas pela equipa Terapêutica.
  • Os utentes propostos, devem ser previamente entrevistados por pelo menos dois elementos da equipa terapêutica, com o objetivo de uma seleção.
  • Nº de utentes/ Proporção entre sexos / diferença de idades… 

Contrato Terapêutico:

Com o objetivo de garantir o cumprimento de “regras do funcionamento do grupo”, é feito com os pais e com a criança, um Contrato Terapêutico prévio, com definição dos objetivos do tratamento, explicação das regras do funcionamento do grupo (e sempre que necessário repetindo as regras durante as sessões…)

Normas de funcionamento do grupo terapêutico – Sugestões:

  • As sessões decorrem durante o ano letivo escolar, com interrupções nas férias do Natal, férias da Páscoa e férias grandes. 
  • As sessões têm uma frequência semanal e a duração de 60 minutos.
  • É importante que o utente seja assíduo às sessões (importante para o próprio e para os outros participantes do grupo), sendo excluído o elemento que der mais de três faltas não justificadas.
  • Garantir o rigor na pontualidade, tanto na chegada como na saída.

Outras regras são previamente definidas:

  • não sair da sala sem autorização, não estragar o material
  • não levar objetos para a sala, nem trazer objetos para fora da sala
  • não agredir os elementos do grupo

Recomenda-se que os pais não questionem a criança sobre o desenrolar das sessões (bem como assegura-se o sigilo por parte dos terapeutas), de modo a permitir que a sua participação seja o mais livre e espontânea possível.

Realização de um grupo de pais com frequência quinzenal.

A alta de um elemento…

Avaliada quer com o grupo??, quer com o médico responsável pela criança, quer com os pais??? 

Constituição da equipa terapêutica

A equipa terapêutica deverá ser constituída por um Diretor e por pelo menos dois Egos auxiliares (preferencialmente de sexos diferentes).

A opção de dois Egos, relaciona-se com a grande necessidade de contenção dos comportamentos e das emoções, emergentes na interação grupal, nestas faixas etárias.

Avaliação do Processo terapêutico

A avaliação da evolução terapêutica, vai sendo continuamente aferida pela equipa terapêutica mas é feita também com os respetivos médicos assistentes, preferencialmente em 3 etapas, que correspondem a início, meados e finais do processo terapêutico.

Eventualmente a aplicação de escalas no início e no fim do tratamento, nomeadamente:

  •  Escala de Ansiedade Manifesta – Forma Infantil (EAM – FI), e
  • Inventário de Depressão para Crianças (Maria Kovacs)

possibilita complementar  a avaliação do processo terapêutico

Nos G.T. com crianças, quanto às etapas clássicas do desenrolar das sessões, não temos comummente uma demarcação tão nítida, com aquecimento, dramatização, comentários…

Habitualmente, as crianças já entram na sala interagindo umas com as outras, com iterações verbais e mesmo físicas.

As etapas de aquecimento e dramatização, vão-se confundindo.

Também os limites entre os contextos (social, grupal, dramático), são mais fluidos.

Os comentários poderão ser feitos pelos terapeutas no decorrer da própria dramatização, (se deixados para o final da sessão, podem correr o risco de perderem a sua oportunidade como atuação terapêutica, dado os momentos já terem sido esquecidos…

Outras considerações da intervenção com crianças

Crianças – criatividade; espontaneidade; o brincar “ao faz-de-conta”…

Crianças – comparativamente à expressão verbal, a expressão através do corpo (pensamentos, sentimentos), assume particular relevância (diálogo corporal), bem como outras formas de expressão (desenho; jogo).

Crianças – criatividade; espontaneidade; o brincar “ao faz-de-conta”…

  •  Difícil seguir a metodologia clássica do Psicodrama tradicional…
  • Vários obstáculos vão surgindo…
  • Mais raramente temos um protagonista nos G.T. infantis. Mais difícil chegar à dramatização do problema individual da criança…
  • As regras / o transgredir as regras…
  • Frequentemente é necessário incluir todos os elementos do grupo no contexto dramático, num funcionamento mais lúdico e sociodramático.
  • Grande capacidade de tolerância, permissividade e maleabilidade por parte dos terapeutas.

O Dirigir G.T. com crianças requer:

  • Estado de disponibilidade
  • Aquecido para a improvisação
  • Maturidade psicológica
  • Algum talento
  • Humildade
  • Bagagem de conhecimentos técnicos e teóricos.

MAIS CONSIDERAÇÕES – “PSICODRAMA COM CRIANÇAS”

“CRIANÇAS” – encontra-se na literatura referências a Psicodrama realizado com crianças, individualmente ou em grupo, com idades compreendidas entre os 4 e os 12 anos de idade.

“A terapia psicodramática, conta com uma forma específica de brincadeira – o teatro de faz-de-conta….a criança expressa o que lhe faz sentido…”

  •  Quanto mais nova a criança, mais a terapia se centra “no brincar”, (até porque as crianças mais pequenas passam muito tempo a brincar ao “faz de conta”) e, mais os pais precisam de participar do processo terapêutico do filho.
  •  A questão do desenvolvimento cognitivo da criança, assume particular relevância, bem como a sua maturidade afetiva e cultural.
  •  A questão da realidade versus fantasia (imaginário), – os limites são mais ténues, quanto menor a criança. A realidade individual subjetiva, e a realidade partilhada objetiva. A ficção, como projeção da realidade subjetiva sobre a objetiva (a criança de 4-5 anos parece distinguir bem a ficção da realidade objetiva).
  •  Nas crianças mais pequenas – diferenças entre os sexos quanto aos jogos /brinquedos preferidos: no grupo de meninas, a partir dos 5 anos, são mais as histórias (capuchinho vermelho, branca de neve…) ou desenhos, ou o brincar às casinhas…; no grupo de meninos, são mais os jogos com revolver, cowboys, bolas, carrinhos….
  • – brinquedo oferece à criança inúmeras experiências…de acordo com a sua etapa de desenvolvimento. O brincar com brinquedos vai diminuir muito de interesse, somente a partir dos 10-12 anos…
  •  A elaboração a passar de um plano mais concreto, para um nível mais abstrato.
  •  A importância da função do brinquedo de faz-de-conta e do exercício de simbolização, para o conhecimento da realidade e perceção do outro, é salientado por vários autores.
  • A relação social no grupo de pares e a influência dos mesmos na realidade vivenciada na brincadeira coletiva.

O brinquedo sociodramático, pode constituir um treino na representação de papéis, que facilita a perceção do outro. A brincadeira sociodramática é também importante no sentido em que podem eles próprios ensinar ou estimular o desempenho de papéis.

(desempenho pessoal e na interação social).

  •  – No trabalho com crianças, o terapeuta facilita o processo espontâneo do brincar, e às vezes, nele interfere, com o intuito de ajudar a criança a reviver e reagir de novas formas…”
  •  – Alguns autores (Camila Salles Gonçalves; Carmen Lenci Lamas), salientam que os brinquedos servem como “instrumento de aquecimento da criança” (Carlos Alegre), ou como “parte da dramatização com personagens reais”, ou ainda, como “objeto intermediário” (Bermúdez).

Contudo, também o fato de não contarem com nenhum material lúdico, é apontado como elemento favorecedor da criatividade e do clima de dramatização atingido. Descrevem sessões em que terapeuta e coterapeuta, também participam nas dramatizações e até quando se justifica, na criação de personagens não solicitadas pelo grupo (ex: permitir recuperar o “aquecimento especifico”, voltando a estimular-se para a ação especifica inicialmente proposta, quando as crianças se mostravam ainda inibidas ou pouco atuantes).

As histórias dramatizadas podem prolongar-se de sessão para sessão. As sessões podem terminar praticamente sem nenhum comentário, a não ser aqueles feitos durante a dramatização.

  •  – Já outros autores procuram utilizar nas sessões, a metodologia psicodramática, obedecendo ao esquema clássico, de divisão em fases, ou seja, aquecimento, dramatização, comentários. Descrevem contudo, que nas sessões de grupos infantis, a fase final de comentários dificilmente acontece e que a dramatização muitas vezes se inicia logo que as crianças entram na sala.
  •  – É frequente nas sessões com crianças, não existir protagonista. É frequente a dramatização ser substituída por JOGOS.

“cabe ao D. de jogos dramáticos em grupos de crianças, estimular o envolvimento dos participantes com as suas personagens e com as dos demais (aquecimento)”.

O que diferencia o jogo dramático no Psicodrama é o fato de a representação dramática estar associada à intervenção do Diretor / Ego Auxiliar. , ou seja, há uma instrumentalização das personagens nela envolvidas, à luz dos conceitos e técnicas psicodramáticas.

No jogo dramático com crianças, a participação do psicodramatista pode incluir a criação de personagens e a representação de papéis. Quando necessário, são realizadas breves interrupções para pequenos acertos, a fim de dar continuidade à sessão.

  • Segundo Gisela Pires Castanho, também os adolescentes em geral, estão sempre dispostos a jogar, e a brincar… O jogo dramático é uma das técnicas mais utilizadas, quando se trabalha com adolescentes. Quanto mais novos os adolescentes, mais precisam de se movimentar, menos explicam o que sentem e mais necessitam de objetos intermediários para poderem ter acesso ao mundo interno. Com adolescentes mais novos, os comentários às vezes ficam mais resumidos, empobrecidos, cabendo ao D. relacionar o que foi vivido no jogo com o que se vive no contexto grupal…

A utilização de jogos dramáticos, constitui um importante recurso, contribuindo para uma forma de expressão num contexto mais lúdico (aquecimento / dramatização).

“A liberdade de escolha das brincadeiras ou jogos é muito importante a fim de se promover um vínculo melhor com as crianças e entre elas” (Narvaez, 1976-77)

Pode recorrer-se à utilização de jogos, de material lúdico, ou ao desempenho de atividades escolhidas livremente pelas crianças, para permitir à criança exprimir a sua criatividade e espontaneidade.

Material /Objetos utilizados – muitos ? / poucos ? (embora com grande plasticidade de utilização)

o uso de brinquedos e outros objetos intermediários, poderia obscurecer as dificuldades de relacionamento das crianças…” (Soares, 1992)

“A linguagem da criança é o jogo e neste sentido, qualquer técnica de psicoterapia infantil, terá que utilizar brinquedos, jogos, como forma de trabalho com a criança…

O Jogo dramático no Psicodrama deve ser encarado como uma forma bem mais ampla, do que quando aplicado a outras faixas etárias. Os jogos devem ser grupais por excelência, mas uma quantidade muito grande de material lúdico poderá prejudicar a criança, confundindo-a e dispersando-a. (Regina Monteiro, 1979)

Parece haver unanimidade entre os teóricos em que: “a atividade de brincar “ não só está presente no universo infantil como é o meio ou instrumento utilizado para compreender as crianças e trabalhar com elas.

“RESUMO” Outras particularidades do Psicodrama com crianças (Soeiro -1976)

O Psicodrama Infantil – exige um manejo particular, sendo necessária uma atitude mais diretiva do terapeuta.

É muito mais difícil o aquecimento verbal, tal como é feito em grupos com adultos.

Em relação aos jogos dramáticos com crianças, certas regras do Psicodrama não devem, neste caso ser muito rígidas.

O contexto dramático e o grupal muitas vezes confundem-se, pois a criança dificilmente se restringe simplesmente ao palco (podem entrar e sair a qualquer momento).

Conforme se vão sucedendo as sessões, o Diretor irá aos poucos mostrando o contexto dramático e impondo certa disciplina.

Quanto a outro dado importante no Psicodrama infantil, é o D. ser frequentemente solicitado a participar nas cenas. Pode fazê-lo, pois não fica aqui muito rigidamente definido o seu papel, como “aquele que não entra em cena”.

Frequentemente não surge um protagonista, pois quase sempre é o grupo que atua, …tratando-se não de interpretar, mas somente de observar como os papéis foram desempenhados…Durante a dramatização, aspetos a respeito do desempenho, podem ser assinalados.

Sessões habitualmente mais curtas (60´- 90´), grupos de 6-8 cr. Os resultados do tratamento com crianças são difíceis de serem avaliados… habitualmente não relatam se “melhoraram ou não”…

  • A tendência do Psicodrama com crianças é mais de carácter sociodramático.
  • As dramatizações podem e devem ser intercaladas com histórias reais. 
  • Se o Diretor conseguir chegar a um ponto em que a criança relate os seus problemas – deve ser dramatizado (a história real é sempre mais importante que a simbólica).
  • No Psicodrama Infantil é muito importante o uso de objetos, porque o relacionamento das crianças entre si e com os terapeutas é bastante favorecido, uma vez que o objeto cria uma situação intermediária.

O Objeto Intermediário

O termo “Objeto Intermediário” foi introduzido na teoria e na prática psicodramática por Rojas-Bermúdez (1970) como um recurso para o favorecimento do aquecimento dos pacientes psicóticos crónicos durante as sessões de Psicodrama.

Objeto Intermediário de Comunicação

  • Segundo J. Rojas-Bermúdez, permite graduar, aumentando ou diminuindo as mensagens naturais na comunicação com o paciente (doseamento das mensagens comunicacionais).
  • Quando o objeto é “produto de comunicação estética”, é possível usá-lo como Objeto Intraintermediário de Comunicação para revelação de conteúdos internos do protagonista.

Do ponto de vista da conceituação teórica, este termo foi assim denominado pelo autor de objeto intermediário, devido à própria qualidade deste intermediar a passagem do estado de alarme (campo tenso) para o campo relaxado.

Do ponto de vista prático, o Objeto Intermediário, “é qualquer objeto que funcione como facilitador do contacto entre duas ou mais pessoas” (Castanho, 1995).

O Objeto Intermediário sugere a utilização de uma diversidade de materiais como: papéis, figuras, desenhos… que aplicados sob uma diversidade de técnicas como dançar, pular, desenhar, recortar, colar… [Símbolo] favorecem o envolvimento dos participantes, a interação/ comunicação (verbal e não verbal) e a expressão das emoções.

Na intervenção com crianças, a utilização do Objeto Intermediário (recurso técnico), associada quer às fases de aquecimento grupal, quer à própria dramatização [Símbolo] pode propiciar a emergência de material (comportamentos, emoções), que possa ser trabalhado terapeuticamente.

O Objeto Intermediário Materiais mais comuns:

Estruturados: (bonecos, fantoches, máscaras, carros, objetos de madeira ou plástico…)

Não estruturados: (papel branco, papel de jornal, lápis de cor, clipes, cola, panos, penas…)

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  •  Albino Ramos, M. Vitória Mota Cardoso, José Adriano Fernandes; “Psicodrama na Infância”, Revista da Sociedade Portuguesa de Psicodrama, Nº 2, 83-97, Afrontamento (Ed.), Porto, 1994.
  • Alfredo Correia Soeiro; “Psicodrama e Psicoterapia”, Natura (Ed.), São Paulo, 1976.
  • António dos Santos Andrade; “Deficiência mental, Jogos e Psicodrama: importância dos jogos corporais no desenvolvimento do vínculo em Grupos de crianças”, Revista da Sociedade Portuguesa de Psicodrama, Nº 6, 105-127, Afrontamento (Ed.), Porto, 2001.
  • Camila Salles Gonçalves (Org.); “Psicodrama com crianças: Uma psicoterapia possível”, Ágora (Ed.), São Paulo, 1988.
  • Cristina Villares Oliveira; “Como sobreviver num Psicodrama orientado por crianças. A aventura dos Terapeutas”; Revista da Sociedade Portuguesa de Psicodrama, Nº 1, 75-81, Afrontamento (Ed.), Porto, 1994.
  • Dalmiro M. Bustos; “O Psicodrama”, Ágora (Ed.), São Paulo, 2005.
  • Gretel Leutz; “Correspondências entre a teoria psicodramática do desenvolvimento infantil e os processos e objetivos terapêuticos do Psicodrama”, Revista da Sociedade Portuguesa de Psicodrama, Nº 4, 5-16, Afrontamento (Ed.), Porto, 1996.
  • José Correia Ferronha; “Psicodrama com adolescentes ou a integração de uma catarse”, Revista da Sociedade Portuguesa de Psicodrama, Nº 4, 113-119, Afrontamento (Ed.), Porto, 1996.
  • José Luís Pio Abreu; “O Modelo do Psicodrama Moreniano”, Psiquiatria Clínica (Ed.), 1ª edição, Coimbra, 1992.
  • Júlia Motta (Org.); “O Jogo no Psicodrama”, Ágora (Ed.), São Paulo, 1995.
  • J.L. Moreno; “Psicodrama”, Cultrix (Ed.), 9ª edição, São Paulo, 1993.
  • J. Rojas-Bermúdez; “Teoría y Técnica Psicodramáticas”, Páidos (Ed.), Madrid, 1997.
  • Leonídia Alfredo Guimarães; “Aspetos teóricos e filosóficos do Psicodrama”, Salvador – Bahia, 2000.
  • Maria Luiza Gava Schmidt; “A Utilização do Objeto Intermediário no Psicodrama Organizacional: Modelos e Resultados”, Psicol. Am. Lat., México, 2006.
  • Regina Fourneaut Monteiro; “Jogos Dramáticos”, Ágora (Ed.), 7ª edição, São Paulo, 1994.
  • Regina Fourneaut Monteiro (Org.); “Técnicas Fundamentais do Psicodrama”, Ágora (Ed.), São Paulo, 1998.
  • Ronaldo Yudi K. Yozo; “100 Jogos para grupos: Uma abordagem psicodramática para empresas, escolas e clínicas”, Ágora (Ed.), 18ª edição, São Paulo, 1996

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