O Teatro do Oprimido e o sociodrama

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Augusto Boal   (1913-2008) desenvolveu no Teatro Arena em São Paulo algumas propostas que vão marcar uma inovação na utilização do teatro como ferramenta de conhecimento, e que atualmente é seguida pela metodologia do “Playback Thatre for Social Change”, uma proposta de intervenção social, com base na ação dramática para criar consciência da posição social dos indivíduos e para a necessidade de uma ação crítica para a sua transformação.

Boal, de formação inicial na área das técnicas frequenta a escola de Artes e Dramaturgia, nos anos cinquenta do século XX, em Colúmbia(USA). Nessa altura, nos Estados Unidos viviam-se tem-pos de perseguição política e ideológica, ao mesmo tempo que se acolhiam e se recuperavam muitas propostas estéticas desenvolvidas no modernismo europeu. Entre outras influências, Boal desenvolverá “sistema Stanislavski” que levará para o Teatro Arena em São Paulo. Constantin Stanislavski nome artístico de Constantin Siergueieivitch Alexeiev (1863-1938), ator, diretor, pedagogo e escritor russo . Em 1897 fundou o Teatro de Arte de Moscovo com o objetivo de criar um teatro acessível a todos, por oposição ao teatro de elite.

Esta metodologia reúne diversas influências, nomeadamente da Psicologia e Psicoterapia. Jacob Moreno que criou um modelo de teatro espontâneo com base no jornal diário da vida de cada um é um. É considerado o fundador do Psicodrama e do Sociodrama (e do axiodrama), um método de investigação das relações interpessoais e intergrupais (por via da terapia de grupo). O objetivo do psicodrama é favorecer a relação dos indivíduos e dos grupos com emoções e os sentimentos, por via do exercício dramático. O sociodrama trabalha as relações entre os indivíduos com base no treino dos papeis socias. OAxiodrama trabalha as grandes questões culturais.

Estamos portanto no domínio da reflexão da poética como a definiu Aristóteles. O drama apresenta um potencial para explorar a essência dos indivíduos e para mobilizar as suas energias criadoras. Ao mesmo tempo, a situação em drama alicerça a aprendizagens dos papéis sociais e o desenvolvimento das redes relacionais. Um conjunto de elementos de atuam como facilitadores da consciência de si e de ação transformadora.
Esta é uma metodologia que tem vindo a ser aplica ao desenvolvimento social e pessoal do ser humano, ao mesmo tempo que é apontada como favorecendo a transformação social por via da consciência dos individuos  em relação a si e aos outros. A sua base está na a capacidade de incorporar o corpo como lugar de experiência (de ser e estar) no mundo, para o transformar por via da ação (do fazer). O Teatro do Oprimido tem uma raíz neste movimento mas ajusta-o às práticas do teatro.

O Teatro do Oprimido 

O Teatro do Oprimido  (TO) é um método teatral que reúne exercícios, jogos e técnicas teatrais elaboradas pora Augusto Boal, com o objetivo de possibilitar a todos a participação no processo teatral. Augusto Boal  escreve em 1977  O Teatro do Oprimido e outras poéticas Políticas, publicado pela editora Civilização Brasileira. Insere essa proposta no contexto da democratização da ação cultural e na proposta de transformação social que os atores sociais procuravam. O livrinho publicado, que explicita a experiência do autor, constitui um manual de técnicas teatrais e de preparação do ator, mas inclui uma dimensão política, criada com o objetivo de libertar e transformar o indivíduo. Tudo isso se passa num contexto da América do Sul, onde para além deste movimento na cultura, se encontram também os movimentos da Pedagogia de Oprimido de Paulo Freire

O “Teatro do Oprimido”, tem como objetivo transformar o espectador. A crítica ao teatro clássico é que este remete o espectador para uma posição passiva, como receptor duma mensagem. O tempo do teatro não está ligado ao tempo da ação. a inovação de augusto Boal é que assume o teatro como uma proposta transformadora. O espectador é protagonista da sua transformação.No teatro pode ensaiar os seu processos de libertação pessoal. No teatro do oprimido todos são simultaneamente atores e espetadores.

A Técnica do Teatro do Oprimido

A proposta doTeatro do Oprimido organiza-se em diversas formas de ação teatral. Todas elas implicam uma ação dramática. Uma ação que é catalisada o confronto com uma realidade. As tecnicas são soluções para gerar ação dramática:

O “Teatro-Jornal” é uma acção teatral com base nas notícias do jornal ou qualquer outro material, que sem estar expressamente ligado á ação dramática, se transforma em pretexto de ação dramática. Aplica-se de diferentes fomas: Inicia-se por uma leitura simples duma notícia, procurando apenas captar os fatos. de seguida procura-se uma leitura cruzada. Outro ponto de vista e outra leitura, duas leituras sobre uma mesma coisa. finalmente procura-se informação complementar. Um olhar, olhares cruzados, olhares complementares. A leitura complementar deverá produzir uma crítica ao processo. Essa leitura é alvo duma ação dramática. Musicada, declamada de forma a que o “filtro” da leitura crítica seja acentuado. É um processo de produção de inovação. Na representação são admitidas a manutenção das outras leituras e os atores podem recriar eles próprios outras cenas sobre a notícia. No processo de produção do material dramático podem-se integrar outras situações dramáticas que acentuam a sua ocorrência noutros contextos. Acrescenta-se com isso uma dimensão histórica ao processo.

No processo de produção do Teatro do Oprimido acrescentava-se à acção dramática a encenação. A encenação não é pensada em temos de estética, mas como forma de pontuar os elementos da cena. O projetor que acentue o foco e a tensão da ação.

Na produção do teatro do oprimido procura-se que a forma a poética acentue a essência da tensão. No Teatro do Oprimido, esse essência poética é acentuada pela “opressão”. A função desse teatro é procurar realçar essa opressão e acentuar as formas que podem conduzir à libertação. A produção cénica deverá acompanhar essa pulsão de opressão-liberdade. Por vezes usa-se o absurdo e o brulesco para acentuar situações limite.

O trabalho com os atores é uma parte essencial da produção do teatro do oprimido. Cada pepel é apresentado ao grupo e discutido em grupo. É necessário gerar um consenso no grupo para a escolha dos papeis. Um papel é simbólico e implica o uso do corpo. A experiência corporal é integrado do processo dramático. Os papeis tem que ser experimentados e representados.O ator vai esculpindo estátuas de forma a representar o papel. A estátua deverá resolver a tensão do papel. A estátua deverá de seguida ser resolvida, O processo deverá ser iniciado na tensão e resolvido como experiencia do processo.

Em algumas formas do Teatro do Oprimido, o corpo de atores atuam na produção duma proposta dum problema, convidando de seguida os espetadores a participarem na produção da soluções para o problema.Este tipo de teatro Forum. Pode ser adequado para a criação de processos inovadores.

Outra das formas de atuação do teatro do Oprimido, para além da experiência “terapêutica” e do “forum” é o “teatro invisível”. O TI é a representação de situações dramáticas em contextos urbanos sem que os espetadores saibam que estão a ser espectadores da ação. Estas representações no quotidiano apelas à participação das pessoas na solução do problema dramático apresentado. A partir dum guião ensaiado, os atores apelam à participação e intervenção do público na situação dramática.

Outras técnicas do  Teatro do Oprimido

Augusto Boal desenvolveu a adotou outras técnicas para o Teatro do Oprimido: A fotonovela resulta da leitura de uma fotonovela, acompanhada por uma representação e registro fotográfico. Esse registro é posteriormente exibido e discutem se os papeis sociais; O “quebra-repressão” usa como motivação a representação de situações de repressão vividas pelo personagem, como forma de treina-lo para atitudes de resistência. Essa técnica também e usada para ajudar a assistência a tomar consciência da violência. Nesta técni ca é essencial o treino de resistência protagonista; O  “Teatro Mito”, outra tecnica proposta por Boal confronta as grandes questões colocadas pelos mitos. Trata-se dum tipo de teatro de justiça onde as personagens assumem papeis tipos (máscaras). A ação dramática procura levar a que os protagonistas retirem as máscara e se assumam como indivíduos, A variante do “teatro popular” também trabalha com máscaras e procura expor as convenções socias que determinam os comportamentos sociais. Procura-se evidenciar as situações caricatas dessas convenções e regras, sobretudo aquerlas que estão evidencia as desigualdades dos atores e dos papeis dos atores sociais. O teatro popular trabalha sobre a coisificação do ser humano.

O Curinga

A figura do Curinga é um elementos fundamental do TO. Trata-se dum personagem que trabalha junto dos espetadorers a formar grupos, realiza oficinas e trabalho artísitco. É uma ooficina pedagógica.

CURINGA significa fingir, imaginar, fantasiar, experimentar, mudar de valor, representar qualquer outro, remexer e trabalhar de novo. É uma mistura energética de variadas expressões musicais Portuguesas e do Mundo, por meio de uma abordagem atrevida e sagaz, capaz de criar no momento o elo entre o passado e o futuro.