Principais conceitos da teoria moreniana

Os Principais conceitos da Teoria Moreniana.

Moreno  (re) criou conceitos e desenvolveu um conjunto de instrumentos específicos e métodos peculiares de acção. O seu trabalho foi muito influenciado pelas correntes filosóficas da sua época e, em particular, pelo movimento da fenomenologia existencial.” (Veiga, 2009, p.105) Assim sendo, o ser humano é dono do seu próprio destino, assumindo um papel responsável e ético na sua viagem, a que todos chamam vida, e entre conflitos e alianças que vai encontrando formas mais saudáveis de se relacionar consigo e com o mundo, (re) descobrindo as suas capacidades e aprender criativamente a sua existência.

Moreno “bebeu” da corrente filosófica existencialista para fundamentar alguns dos seus conceitos e realça a “importância de vivenciar a verdade de uma pessoa por meio da acção; o valor da realidade subjectiva; a premissa de um encontro vivo no aqui-e-agora entre as pessoas (…) e um profundo igualitarismo” (Moreno, s/d, cit. Fox, 1987, cit. Veiga, 2009, 105)

Para além destes aspectos o pai do psicodrama afirma e dá ênfase ao ser humano como um animal gregário, é o ser mais inacabado à superfície do planeta terra, e é durante o seu desenvolvimento ontogénico, condicionado pelo meio onde está inserido, que “vai ampliando ou diminuindo a sua força e bem-estar” (Veiga, 2009, 106) Sendo o meio social o molde da personalidade dos indivíduos consequentemente ele também é responsável pelos “problemas psicológicos” do ser humano “pelo que a cura passa pelo encontro vivo, no aqui-e-agora, entre as pessoas” (ibidem). Tendo isto, o autor apresenta o grupo como estratégia para efectivar a “metamorfose” do indivíduo sendo que sozinho teria dificuldade em abandonar o seu “casulo”.

As curtas premissas acima mencionadas estão na base dos conceitos desenvolvidos por Moreno. Passo a expor alguns dos conceitos:

Espontaneidade e criatividade

Como foi referido anteriormente o ser humano é o ser mais inacabado à face da terra. Invoco aqui o conceito de neotenia para complementar esta afirmação. O atraso no desenvolvimento, devido aos genes que são responsáveis pelo atraso ontogénico, implica que o ser se desenvolva mais devagar, alargando a infância e a dependência dos progenitores. Na verdade o ser humano apresenta traços e características juvenis na idade adulta. A plasticidade e a capacidade de adaptar-se em diferentes meios são uma prova disso. Esta capacidade inerente ao ser humano permite dar respostas criativas e espontâneas face ao contexto.

Assim sendo a espontaneidade é a capacidade de responder adequadamente a novas situações, ou adquirir novas condutas a condições antigas. Todavia não podemos esquecer que o Homem é um ser cultural. Durante o seu desenvolvimento a cultura regula o indivíduo cristalizando determinadas formas de estar, ser e pensar colocando em causa esta capacidade espontânea e criativa do ser humano. A espontaneidade pode ser exercitada fazendo com que “o indivíduo aja e reaja com prontidão, coerência e sem rigidez dos acontecimentos; saiba avaliar, esteja atento às alternativas e represente os papéis com desenvoltura.” (Veiga, 2009, 107)

Para que a mudança do “sine qua non” ocorra  é necessário introduzir novas sensações ao indivíduo. Este ao vivenciar uma realidade imaginária no palco dramático poderá anular e ganhar consciência das causas das relações recíprocas estéreis do mundo real estimulando para criar actuações “sui generis” com base na espontaneidade.

No “como se” “ Expressar-se por expressar-se a todo o custo não é necessariamente ser-se espontâneo. Pode significar precisamente o contrário, pode servir para esconder ou mascarar os sentimentos autênticos. É desse exemplo aquele que fala e gesticula sem parar. Um indivíduo não deixa de ser espontâneo quando, por exemplo, sentado numa cadeira, olha tranquilamente para os outros e para os objectos que o rodeiam. ” (Moreno, 1973, cit. Aguilar, 2001)

Nascimento

O nascimento, ou parto como alguns lhes chamam, ocorre quando o feto atinge determinado estado de desenvolvimento dando-se, inicialmente, as contracções do útero acabando por expulsar o feto para o mundo “opressor”. Este é o primeiro momento do bebé protagonista que coloca à prova a sua capacidade espontânea de se adaptar ao novo mundo.

Se este bebé fosse deixado por contra própria o seu destino seria enfrentar a morte. Daí, e relacionando com inacabada “obra” que é o ser humano, o novo residente terrestre com os seu poucos recursos carece do outro para que o ajude a ultrapassar as dificuldades, que satisfaça as suas necessidades e que o integre numa cultura.

Fazendo uma analogia deste processo para o psicodrama o nascimento é um duplo processo, por um lado o bebé que tenta libertar das amarras do mundo intra-uterino, no caso do psicodrama o protagonista que tenta desamarrar as suas incapacidades conquanto, necessita de parteiras, mãe, amas, obstetrícias… (egos auxiliares) “aprenda a gerir e a lidar com os diversos obstáculos que dificultem ou impedem a sua maturação e o seu desenvolvimento.” (Veiga, 2009, 109)

Encontro

Como ser gregário o ser humano está em constante interacção. Estas interacções nem sempre baseiam-se na partilha, na compreensão e no diálogo. Aqui o encontro não é uma mera interacção onde o indivíduo toma consciência da existência do outro (todavia pode ser um momento para criar uma relação). O encontro pressupõe uma relação onde o eu e o tu não têm medo de desconfigurarem-se face aos diferentes olhares a um dado objecto. Olham para a situação como um complemento compreendendo-se mutuamente. Este encontro promove a criatividade sendo estes dois olhares fecundantes podendo conceber uma nova forma de olhar.

Momento

Ao contrário das psicoterapias tradicionais, que buscam o passado dos indivíduos para encontrar as causas de determinados comportamentos,  o psicodrama dá importância aos momentos e às relações do presente e actuais. Mais do que a busca da origem dos problemas o psicodrama centra-se nos sentimentos, nos comportamentos actuais que incomodam o protagonista, quer por razões passadas, quer por razões futuras. As razões passadas, fora das tensões, permitem analisar a situação dando um novo “sabor”. As situações futuras permitem diminuir as ansiedades e numa experiencia comunicacional, entre o grupo, facilita uma acção criativa. Como afirma Fabregas (1995, cit. Veiga, 2009, p.109) o Psicodrama é “a-histórico e intemporal, referindo ser seu objectivo  considerar o Momento não como parte da História, mas a História como parte do Momento”

Tele

Podemos referir que a tele é um conceito multifacetado, ou “um fenómeno da interacção, viabilizado entre seres humanos, incluindo percepções mas sem se limitar a ela, abrangendo mutualidade, complementaridade, coesão, globalidade vivencial e polimorfismo de desempenho de papéis, guardando correlações com posição sociométrica e dependendo dos processos intrapsíquicos que envolvem qualquer relação”(Perazzo, 1994, p.52 cit Abreu, 1992, p.102)

Por certo este é um dos conceitos mais complexos do psicodrama Moreniano e que comparo a um fenómeno social total na qual estruturam o eu e o eu contribui para essa estrutura.

Acting-out e Catarse de integração

Moreno deu relevo à exteriorização dos pensamentos e às experiências internas. A passagem do material intrapsíquico para o contexto dramático e grupal é, por si só, terapêutica. (Soeiro, 1994 cit. Veiga, 2009, p.118) Pode-se distinguir dois padrões de acting-out: o irracional e o terapêutico.

O acting-out irracional acontece fora da sessão psicodramática “e decorre da própria existência do indivíduo.”

O terapêutico ocorre durante a sessão quando o protagonista com o seu “bio-(corpo)psicossocial consegue representar o seu o trama interno. Este acting-out não tem que ser um processo instantâneo, ou seja, pode ser efeito de um processo gradual na qual o protagonista reconhece uma nova configuração integrando elementos e reestruturando as suas cognições sentindo-se cada vez mais responsável pela história da sua vida, consciente das suas escolhas, num mundo subjectivo.

Gostaria de partilhar um momento pessoal idêntico a este processo apesar de não acontecer num contexto psicodramático mas de igual modo semelhante.

Em tempos pediram-me para construir a minha história de vida e apresentar a um grupo de uma forma original. Como possuo uma veia teatral decidi escrever um monólogo e apresentar essa dramatização. Quando registava os acontecimentos da minha vida e reflectia sobre eles algo aconteceu! Comecei a perceber que muita da minha revolta interna devia-se a um conjunto de situações não muito favoráveis (assim pensava) mas que simultaneamente percebi o quanto me fizeram crescer  e o quanto foram importantes para mim. A partir desse momento comecei a valorizar essas situações e os problemas que na altura vivenciava com a minha entidade patronal ganharam um novo sabor. As minhas amarguras deixaram de as ser! Foi um momento de grande crescimento, uma nova forma de olhar para a vida. Acredito cada vez mais em proporcionar momentos de introspecção para compreendermos a complexidade da vida humana e acima de tudo aceitar aquilo que nos acontece reavaliando as situações de uma forma positiva.

Teoria dos Papéis

O papel é o elo de ligação entre a cultura e a personalidade (Abreu, 1992 , p. 53). Como referi, anteriormente, o ser humano é um ser cultural. Antes da concepção do indivíduo a cultura já existe e é essa mesma que vai incutir ao novo ser vindouro padrões de comportamento, implicitamente ou explicitamente, facilitando, ao indivíduo, vias de relacionamento social e familiar.

O papel só se materializa na existência de um outro papel complementar (pai/filho; professor/aluno; médico/paciente…) vivenciando uma “experiencia interpessoal, na qual vários actores se encontram implicados e se influenciam mutuamente” assegurando a integração na sociedade. (Veiga, 2009, p.110)

Existe duas variáveis que condicionam a teoria de papéis: multiplicidade e a integração de papéis. Relativamente à primeira está relacionada com o tipo de organização e hierarquização da própria sociedade e que por sua vez pressupõe um número de estatutos. Quanto maior for a oferta da cultura relativamente aos estatutos maior é o tempo de formação da personalidade do indivíduo. No que diz respeito à segunda – integração de papéis –  o facto de desempenhar novos papéis não significa que estes se harmonizam com os papéis precedentes. “Cada desempenho de um papel novo pode retirar a força e a adequação, ou a espontaneidade, de papéis anteriores mais ou menos compatíveis. Quando os vários papéis solicitados não se harmonizam, o seu desempenho mostra-se esteriotipado, forçado, difícil e, acima de tudo, não é realizado com prazer nem leva ao sentimento de realização pessoal ” (Fox, 1987, s/p. cit. Veiga, 2009, p.110) Assim sendo é de extrema importância o indivíduo integrar e harmonizar os diferentes papéis que desempenha de forma a se relacionar espontânea e criativamente.

Moreno apresenta três classes de papéis – psicossomáticos; psicodramáticos e sociais.

Papeis Psicossomáticos

A criança quando nasce precisa do outro para satisfazer as suas necessidades fisiológicas e é o outro, possuidor de uma cultura, que o educa de acordo com o seu quadro de referências. Assim a criança “aprende a comer, dormir, estimular-se, urinar e defecar (…) estas actividades correspondem os papéis psicossomáticos” (Abreu, 1992 , p. 60) Este processo, pela qual a criança passa, é um treino dos seus papéis acabando por integra-los à medida que se desenvolve e são nestes jogos que o novo ser se relaciona com a família.

Segunda a Teoria do Núcleo do Eu de Rojas – Bermúdez (1978, s/p, cit. Veiga, 2009, p.112 ) realça os três papéis psicossomáticos: ingeridor, defecador e urinador. São estes papéis que estão na origem na personalidade, “o espaço mais íntimo, profundo e impenetrável, a partir do qual todas as projecções e papéis emergem.”

O centro da personalidade, ou melhor dizendo, o núcleo do Eu, é um espaço profundo, íntimo e inviolável e, para além deste núcleo “pode-se perceber uma barreira defensiva que limita um outro espaço denominado de si mesmo” (ibidem)

As barreiras defensivas não permitem alcançar uma relação de auto-abertura e consequentemente colocam-na em causa baseando-se em ideias estereotipadas e pré-programadas de interacção. Se ultrapassarem as barreiras “logram um contacto com o exterior, estabelecem vínculos com os papéis complementares e desenvolvem-se mais” (Abreu, 1992 , p. 61)

As sessões de psicodrama permitem uma certa descontracção diminuindo as defesas do «si-mesmo» “possibilitando o contacto com o «núcleo do Eu». Aqui são  deixadas, a descoberto todos os papéis de forma a possibilitar um contacto mais flexível, adequado e verdadeiro com o exterior. Os papéis menos desenvolvidos podem nestes contextos criar vínculos com os papéis complementares e desenvolver-se mais.” (Soeiro, 1991, s/p, cit. Veiga, 2009, p.112)

Papeis psicodramáticos ou psicológicos

Efectivamente, os papéis psicológicos, têm a sua base na cultura, conquanto o receptor é um sujeito activo podendo recriar e redefinir esses mesmos papéis. Jamais podemos descartar o impacto  no indivíduo dos papéis que desempenha, a forma como os  integra interagindo com a sua personalidade. Mesmo que o indivíduo não assuma o seu papel pode ser entendido pelo outro durante as interacções.

O papel psicológico corresponde  “à dimensão pessoal da vida psíquica, à dimensão psicológica do Eu, livre das resistências do exterior. ” (Veiga, 2009, p. 113)

Para Moreno nestes papéis psicológicos invade a função da fantasia e da imaginação do indivíduo que se mistura com a função da realidade, ou seja, o que gostaria de ser e o que esperam que eu seja limitando a sua forma de actuar, a sua espontaneidade e criatividade. Quando a função da realidade “começa a impor-se à realidade, dá-se uma fissura entre a realidade e a fantasia e a diferenciação entre os papéis psicodramáticos e sociais.” (ibidem)

Papéis sociais

Os papéis sociais desenvolvem-se depois dos papéis psicossomáticos e psicológicos e mais uma vez não podemos descurar a cultura. É importante reforçar que a cultura “oferece um amplo leque de papéis que vão ser preenchidos por vários indivíduos.” (Abreu, 1992 , p. 55) É num jogo de expectativas que são treinadas muitas vezes na infância que permitem ganhar capacidades para desenvolver outros papéis.

Com a formação e a escolarização diferenciada permitirá ao indivíduo aceder a informações conducente a uma eficácia do seu papel. Se o seu papel for bem desempenhado é porque tem algo de “original e criativo. É enriquecido e enriquece a personalidade do protagonista. Neste sentido, pode transformar-se num papel psicodramático. (Ibidem, p.57)

Uma pequena curiosidade, como amante do teatro e actor amador, (tenho pena que por limitações de tempo esteja um pouco apagado) revejo-me muitas vezes nas personagens que desempenho, não é de facto o meu papel enquanto real, mas vou integrando alguns aspectos das personagens criadas na minha personalidade. Assim sendo, e apesar de não estar a treinar o meu papel onde posso repetir de uma forma diversificada, como é o caso do sociodrama, penso que em muito me ajuda a desenvolver relações empáticas, com alguma facilidade descentro-me do meu “eu” e coloco-me no lugar do outro. Depois a dificuldade de perceber as fronteiras do papel social e o meu papel psicodramático.

Moreno (várias datas) define psicodrama como ciência que busca a «verdade» através de métodos dramáticos, trabalhando com relações interpessoais e mundos privados. No psicodrama todos os papéis do indivíduo podem ser trabalhados. Já o sociodrama foi definido como um método profundo de acção para abordagem de relações intergrupais e de ideologias colectivas, sendo o seu foco o grupo ou o tema. (Veiga, 2009, p.120)

Existem duas escolas que apresentam determinadas peculiaridades relativamente ao sociodrama. Uma defende que esta abordagem deve estar centrada exclusivamente no grupo, enquanto a outra complementa afirmando que tal abordagem pode contar com um protagonista (ou vários protagonistas) desde que declame um tema comum aos vários elementos do grupo.

No psicodrama o director e a restante equipa centra-se no indivíduo e nos seus “tramas” pessoais sendo a formação do grupo cuidada e não muito extenso.

Conquanto, existem autores que afirmam que as fronteiras destas duas terapias são águas salobras, onde o sal do mar se mistura com o doce do rio. Bertão defende que o limite entre grupal e individual é algo espalhado, “o social se confunde com o pessoal, um não existe sem o outro” (2004, p.3 cit. Veiga, 2009, p. 120) e “a catarse colectiva não impede em alguns momentos o aparecimento da catarse individual e o grupo entendido enquanto protagonista não impede o surgimento de protagonistas individuais” (Bertão, 2008, p.17, cit. Veiga, 2009, p.120)

Na verdade tanto uma como outra procuram despoletar no(s) indivíduo(s) capacidades espontâneas face à conjuntura vivencial.

Quebra de página

Instrumentos do sociodrama

O Ateliê do Sociodrama

O pintor pinta incansavelmente à procura da perfeição. Que seria do pintor sem os seus pigmentos, sem o seu pincel, sem a sua destreza fina e delicada. Para as sua obras é necessário conhecer as cores, os pincéis duros de pêlo de centauro, ou os pincéis de pêlo macio de Pégaso. Assim é o sociodrama que carece de instrumentos para poder esboçar o desenho, de uma palete onde se possa confrontar as cores sendo fundamental conhecer a consciência subjectiva e objectiva do ser humano.

O sociodrama troca o ateliê pela sala sociodramática, a tela pelo cenário, o pintor pelo director, o pigmento pelo protagonista, o cavalete pelos egos auxiliares e o museu pelo auditório.

A expressão dramática dá asas à nossa imaginação, tão depressa estamos no planeta Marte como tão depressa estamos numa sala sociodramática. Assim sendo, através da imaginação, e com uma ajuda detalhada, voaremos para esse ambiente.

Sala do sociodrama

O ideal, de uma sala do sociodrama, é um espaço amplo onde se deve contar sempre com um estrado baixo no centro da sala que designaremos de “ cenário, sobre o qual estão colocadas, num dos topos, duas cadeiras vazias encostadas pelas pernas da frente”  (Abreu, 1992 , p. 23) As cadeiras representam o psicodrama, neste caso o sociodrama, e dependendo da fase do processo poderão estar em posições diferentes. Durante o aquecimento a posição das cadeiras formam uma união entre as pernas posteriores. Após o emergente grupal os pontos que se unem entre as cadeiras tornam-se pólos opostos abrindo-se para a dramatização. O director encontra-se por detrás das cadeiras assim como os egos- auxiliares e à volta destes os elementos sentados que formam o grupo – em círculo. Todavia nem sempre se pode obedecer aos pré-requisitos – uma sala com um estrado…um espaço minimamente acolhedor pode servir perfeitamente para sessões sociodramáticas.

O cenário

A tela, ou melhor dizendo, o cenário, ou palco,  é a “boca de cena” onde desenrola a dramatização. A dramatização é orientada pelo director e como espaço dramático o público pode dar lugar a um outro papel, o protagonista pode encarnar outro ser, e aquele palco pode-se transformar num outro espaço. Tudo é possível! Podemos voltar ao passado e instantaneamente voltar ao presente, projectarmo-nos num futuro e repentinamente voltar ao passado. Tudo depende do emergente grupal. São estes jogos, entre o real e a imaginação (nada impede que a imaginação se torne real, pelo menos espera-se que se torne vantajoso para os indivíduos) que permitem  “criar situações (…) e, simultaneamente, um instrumento de reflexão para se chegar à invenção e à criatividade. É um espaço de “ confronto que obrigam o jogador a reagir a partir dos indutores que lhe são propostos; considera-os um «ensaio sem riscos», defendendo que uma das virtualidades mais importantes do jogo dramático e da improvisação é o permitir as repetições e os regressos. (…) exploram-se tentativas, aperfeiçoa-se e inventa-se. ” (Lopes M. V., 1999, p. 13) O cenário é um espaço de liberdade ausente de juízos de valor ou condenações. É fundamental que durante as sessões sociodramáticas o grupo seja coeso (existe alturas em que coesão inviabiliza a liberdade na medida em que grupo age de acordo com as expectativas que uns têm de outros agindo em conformidade – actuam para que seja aceite no grupo em detrimento dos seus verdadeiros pensares e sentires), maduro mas acima de tudo que deixe os seus mecanismos de defesa de lado e se baseiem em relações de aceitação, compreensão e confiança.

Os protagonistas

Em todas as sessões as cores misturam-se dando origem a uma nova pigmentação, ou talvez não… No sociodrama “o objectivo da terapia é o próprio grupo” (Abreu, 1992 , p. 25) sendo os elementos do grupo protagonistas (não quer dizer que se destaque um ou outro elemento). No início de cada sessão devido aos problemas, as vivências, as necessidades, a importância ou a urgência de determinada questão (tudo tem que ser bem medido) dá luz ao emergente grupal. O director neste momento tem a dura tarefa de encontrar o caminho para a dramatização.

No meu caso particular todas as questões giram em torno do curso de educação social, das nossas dificuldades, dos nossos problemas, das questões inter-relacionais que ocorrem no nosso percurso académico. No cenário vivenciamos situações comuns que nos permitem reflectir sobre elas, fazer uma descrição das dificuldades e encontrar ou criar novas estratégias para as colmatar. O director “pode optar por substituir a dramatização por jogos com o objectivo de tratar temas colectivos, fortalecer a coesão do grupal ou obter diagnósticos, podendo, no decorrer deste processo, evidenciar-se um protagonista em particular. ” (Veiga, 2009, p.128)

Egos-auxiliares

Os egos-auxiliares são aqueles que colaboram com o director e que interagem durante a dramatização com os protagonistas “que podem ter ou não relação com o grupo, e prestam-se a auxiliar os protagonistas, assumindo personagens e ajudando a encontrar um clima emocional adequado.” (Lopes M. S., 2008, p. 356) Na certeza, os papéis que assumem os egos-auxiliares, idênticos à situação original, provocam aos protagonistas uma nova reavaliação da situação real, ou imaginária. Ao contracenar com o outro, repetindo as vezes necessárias, livres de tensões do quotidiano, os protagonistas encontram possíveis razões para a situação vivencial. Na minha opinião a existência de egos-auxiliares permite aos protagonistas afastarem as suas representações mentais que em muito influenciariam se a acção fosse simplesmente unilateral e discursiva, ou seja, se a dramatização fosse baseada num pensamento único (do protagonista) e que pouco ou quase nada se alteraria. Assim sendo, ao contracenar com outro ser pensante, as estruturas cognitivas, possivelmente, sofrerão uma nova acomodação e o desenvolvimento ocorrerá.

O pintor ao contemplar a paisagem para passar para a sua tela poderá dar nuances e sombras não existentes, alterando a realidade. No Sociodrama o director serve-se dos egos-auxiliares como se fossem sombras e nuances de forma a permitir a criatividade dos protagonistas, dando um novo sabor à realidade.

Por vezes utilizam-se elementos que integram o grupo como egos-auxiliares designados por naturais. Quando um elemento do grupo é convidado para representar um papel inicia-se um duplo processo desenvolvimental, quer para o protagonista quer para o ego auxiliar (profissional ou natural). Para uma melhor explicação passo a uma experiência pessoal no teatro amador. Quando representava um papel paralelamente fazia uma crítica comparativa entre a personagem que estava a representar e o meu “eu”, reconhecendo, assim, a minha própria personalidade, o que queria realmente para mim enquanto pessoa. Assim sendo também considero que o desenvolvimento é bilateral tanto para o protagonistas como para o egos-auxiliares, bem como para todos os elementos que integram este processo.

O auditório 

O auditório é constituído pelos restantes elementos que não entram na acção dramatizada. É o público que assiste ao clímax do emergente grupal. Referi num outro diário de bordo que “ler um livro, ir cinema parece ser uma simples diversão mas por detrás deste «pano» a que eu chamo passatempo está escondido experiências da vida humana, realidades próximas da minha. Através destas distracções posso observar situações e abrir o meu leque de respostas às mais diversas conjunturas.” Nas dramatizações existe algo de semelhante vivenciado situações semelhantes à minha (podendo ser importantes para futuras situações) ou simplesmente observar e constatar a complexidade das relações humanas. “No final da dramatização, o auditório é convidado, caso o protagonista deseje, a expressar as suas emoções e opiniões.” (Veiga, 2009, p.134) É nesta fase que me sinto protagonista, é nesta fase que eu posso intervir e que em muito me satisfaz, i.e., onde eu posso mostrar o meu ponto de vista a partir da análise situacional, ser participativo, dar a minha opinião e contributo crescendo paralelamente com aquilo que oiço.

Apesar de considerar importante a partilha, e que em muito contribui para o nosso desenvolvimento, também tenho verificado que existe alguns constrangimentos na fase da partilha onde o público/auditório dá um feedback da dramatização ou de um outro jogo. Parece-me importante referir que as minhas reflexões são feitas de acordo com as minhas experiências inviabilizando uma visão generalista. Não podemos confundir uma árvore com uma floresta. Afiro, quando dialogo com o meu cigarro nos intervalos das aulas, alguns ruídos paralelos acerca das sessões do sociodrama. Entendo esses ruídos como posturas conformistas ou de falta de maturidade. Depois é interessante observar os comportamentos das pessoas dentro das sessões. Comunicar não é o simples discurso verbal, consigo fazer leituras, já com o complemento exterior, e o que se passa dentro das sessões. São as trocas de olhares, são os sorrisinhos sarcásticos, enfim…tendo esta situação tomo atitudes conformistas caso contrário criaria mais constrangimentos e mais conflitos entre o grupo. Depois é interessante verificar que para as pessoas está tudo bem, mostram a imagem de tudo controlado e de harmonia grupal. Possivelmente contribuo para essa imagem. Tenho em conta que o grupo em questão está junto há quase três anos lectivos. A diversidade de formas de estar e ser contribui para um eterno movimento de conflitos e alianças. Esta é a natureza humana. Assim como o pintor pinta incansavelmente à procura da perfeição o ser humano procura a perfeição da relação entre conflitos e laços e assim se vão conhecendo e assim se vai construindo uma relação.

O director

Director é um pintor que pinta incansavelmente à procura da perfeição. São estas atitudes que se pretendem que todos os elementos, que passam por este processo sociodramático, adquirem, ou seja, o desejo de se tornarem melhores pessoas, o desejo de encontrar o desenvolvimento eterno inatingível.

O director estimula os membros do grupo a pincelar o quadro comum, faz circular a comunicação para, em conjunto, construir uma nova obra de arte. O director faz circular os pensamentos de forma a oferecer aos pensamentos novas ideias para resolver ou confrontar tarefas e problemas.

Existem autores que afirmam que o director tem a função de catalisador (estimular) como Educador Social gosto da expressão “guardião”, ou seja, aquele que permite a “participação” e assegura que todos os elementos possam “compartilhar as suas ideias e sentimentos” sentindo-se protegidos (Cascão & Neves, 2001, p. 49) No meu olhar só se pode estimular se o estimulado sentir que existe alguém a protege-lo (o contrário poderá fortalecer os mecanismos de defesa e a resistência do estimulado). É num clima de protecção e de aceitação que os elementos do grupo se podem libertar podendo dar lugar a tão esperada catarse. Penso que a dura tarefa do director é possibilitar ao grupo posturas humanistas, tal a perspectiva Rogeriana, elevado nível de compreensão e empatia, aceitação positiva incondicional, total autenticidade e congruência. São nestas relações co-construídas que o processo sociodramático ganha uma qualidade invejável caminhando nos caminhos da entre ajuda e contribuindo para o empowerment dos indivíduos

Não existe sombras de dúvidas que o director deve ter um conjunto de conhecimentos mais técnicos/profissionais e a sua formação pessoal é deveras importante. Como seria um director com as suas falhas narcísicas? Onde a preocupação era encher o seu ego em detrimento do outro? Desta forma o director deve ser possuidor de um determinado perfil cuja preocupação é a emancipação do outro através de um olhar mais analítico. É necessário fazer leituras que estão para além do concreto, dos discursos implícitos, das resistências dos protagonistas (é preciso salientar um aspecto, o processo sociodramático é voluntario, ninguém é obrigado a participar), perceber o que querem evitar, clarificar discursos, devolver as incoerências …

O director (psicoterapeuta) deve dar  ênfase no “aqui” e no “agora” do que  os processos clássicos de terapia que buscam o passado para explicar situações presentes. A busca de explicações passadas da terapia clássica pode ofuscar outras potencialidades dos protagonistas, assim sendo, o director da mais realce aos assuntos actuais de forma a capacitar os protagonistas para situações futuras.

Partindo destes pressupostos mais acrescento, o director é de facto o responsável por todo o processo do psicodrama, desde o aquecimento, passando pela dramatização e findando na partilha.

Quebra de página

Fases do Sociodrama

Aquecimento

Durante esta fase podemos distinguir dois tipos de aquecimento – inespecífico e o específico. O director inicia o aquecimento inespecífico com perguntas vagas relacionadas, no meu caso, sobre as expectativas dos alunos de educação social, dos problemas que vão emergindo durante o nosso percurso académico ou de assuntos que os alunos desejariam que fossem abordados. É “um tempo de relaxamento ou de expectativas, convida os elementos do grupo à participação e à interacção livre.” (Veiga, 2009, p. 135) Também é neste momento que o director pergunta aos elementos do grupo se existe algum assunto ainda por falar relativamente a sessão anterior e se gostariam de se debruçar ainda em determinado assunto. A partir dessas questões os alunos começam a interagir acabando por emergir o assunto principal, dando lugar ao aquecimento específico. Após uma abordagem acerca do emergente grupal, para melhor clarificar, dá-se lugar a uma dramatização e/ou estátuas e/ou outros tipos de técnicas para que os protagonistas com o seu biopsicossocial tome consciência das suas representações mentais, dos seus esquemas cognitivos, da sua forma de ver o mundo.

Dramatização

A dramatização tem a sua raiz na palavra drama que deriva do grego – drãma – que, por sua vez, significa acção. A dramatização é o acto de pôr em acção o emergente grupal proveniente do aquecimento específico.

A dramatização oferece no “aqui” e no “agora” três dimensões temporais, ou seja, pode entrar em jogo o presente, passado e futuro. Por outro lado oferece uma dimensão espacial permitindo aos elementos do grupo trazer, ao palco dramático, espaços do real ou do imaginário.

A dramatização é a acção que mais se aproxima da realidade, com a vida, na medida em que permite recriar, simbolizar e representar situações do quotidiano (“como se”), contudo a dramatização não é a realidade. “ Não se trata de abandonar o universo do imaginário em favor do universo da realidade (…) mas antes definir os meios pelos quais o indivíduo pode adquirir um completo domínio de uma situação, vivendo nas duas vias e capaz de passar de uma para a outra” (Moreno, 1970, cit. Aguilar, 2001)

A dramatização permite aos protagonistas a exteriorização das suas vivências interiores, das suas ideias, emoções, sentimentos, necessidades, dificuldades e simultaneamente auto-descobrir novas formas de interagir. Ao jogar entre o “eu” e o “tu” poderá ocorrer novos sentimentos sendo a empatia um dos propósitos da dramatização. É nesta troca de papéis, e numa acção dinâmica comunicacional, que surge a espontaneidade. Integrando outros papéis, o contacto com o outro e descentrando-se de si, possibilita a compreensão e consequentemente desenvolver competências de âmbito social. Muitas vezes o director pode-se munir dos seus egos auxiliares, “a quem dará instruções, e através dos quais ele vai lidar com o protagonista” (Abreu, 1992 , p. 28) facilitando a produção de novas formas de estar, ser e pensar. Como referi anteriormente, o desenvolvimento tanto é para o protagonista como para o ego-auxiliar, assim como para o auditório que “testemunham as situações dramatizadas e ampliam-nas com as suas emoções e vivências, já que, ao mesmo tempo que o protagonista dramatiza no palco, cada um dos elementos do grupo pode ser protagonista no seu palco anterior”. (Veiga, 2009, p. 137)

Não é menos verdade que devemos estar atentos à linguagem corporal (mais do que o discurso que facilmente camufla as suas vivências interiores). São estas formas de comunicar que traduzem a realidade vivencial dos protagonistas.

Dando uma pequena nuance da importância da dramatização é importante realçar (mais uma vez) que a dramatização é uma sequência do aquecimento específico na qual o director ajuda a construir as cenas. No decorrer da dramatização o director poderá utilizar determinadas técnicas (inversão de papéis, solilóquio, espelho, duplo, entre outras). É nesta fase que os protagonistas deixam de descrever as situações e passam a demonstrar com o seu bio(corpo)psicossocial as acções. O director pode introduzir novas cenas ou terminar a dramatização unindo os pés opostos das cadeiras como o “fecho das cortinas” de uma peça de teatro se tratasse. O “como se” termina e os elementos voltam para os seus lugares decorrendo os comentários/partilha.

Partilha/comentários

Este é o momento na qual se integra as fases precedentes. É um momento de partilha sobre a sessão. A partilha compreende um processo organizado. O director começa a dar voz ao protagonista sobre a sua vivência dramática, de seguida ao auditório, posteriormente os egos auxiliares e por fim, a última palavra é a do director. É importante salientar que este momento não se deve confundir com um debate. Em silêncio cada um deverá ouvir o que o outro tem para dizer. “Este procedimento técnico, favorece a integração e sobretudo inibe o confronto no contexto grupal e as consequências projectivas e disruptivas daí advenientes ” (Dias, 1993, p.41 cit. Veiga, 2009, p. 138)

Para mim este é o momento de maior crescimento onde os diferentes olhares dos elementos, sobre uma determinada situação vivencial do contexto psicodramático, podem fazer brotar um novo quadro de referências. Julgo que as aprendizagens são transversais a todos os elementos. A partilha potencia uma maior reflexão sobre a situação e, simultaneamente, lembrar que temos outras escolhas que se podem fazer. Ter uma atitude mais crítica face ao seu “eu” e, consequentemente, poder dar uma resposta mais criativa. Todavia é preciso ter a consciência que apesar da diversidade das respostas dadas a uma situação problemática não nos permite ter uma receita chave, pois, na verdade, cada ser humano é incomparável, cada grupo é único e, possivelmente, a “chaves” encontradas não entraram na “aloquete”. Creio que durante a partilha o grupo sai com mais dúvidas do que certezas para que cada um, individualmente, possa construir no âmbito social, profissional e pessoal novas interacções, possamos ser melhores pessoas com sentimentos de liberdade e éticos (assim acredito!). “Nesta troca reside uma das riquezas das terapias de grupo, ao permitir que todos os elementos possam ser numa sessão terapeutas e protagonistas.” (Veiga, 2009, p. 139)

Quebra de página

Técnicas do Psicodrama

Durante a acção terapêutica o director utiliza determinadas técnicas de forma a favorecer a meta comunicação, a empatia e os sentimentos. Existe um grande número de técnicas, conquanto, irei realçar as principais, jamais por desvalorizar as outras mas pela natureza do trabalho.

Inversão de papéis

Como o próprio nome indica o processo desta técnica é a troca de papéis. Quando na dramatização o protagonista interage com o ego auxiliar e o director enuncia a palavra troca o protagonista toma o papel do seu interlocutor.

Julgo que esta técnica é mais complexa do que parece. Já vivenciei esta técnica e, efectivamente, o que esta técnica permite é aceder às representações que possuo acerca do outro e quando tomo o lugar do outro sou unicamente a projecção das minhas representações. Todavia não deixa de ser interessante porque nos permite ganhar a consciência que de pouco ou quase nada sabemos acerca do outro e que de facto é necessário fazer um constante esforço para o compreendermos. “Antes de tudo é preciso salientar que a inversão ou a troca de papéis só ocorre quando as pessoas envolvidas estão de facto presentes. Quando o protagonista «troca» de papel, desempenhando o papel de alguém a quem está se referindo, real ou imaginário, o que se está usando é uma variação da técnica de apresentação de papéis, em que ele toma o papel do outro, expressando o modo pelo qual o vê.” (Monteiro, 1998, p. 21)

Tendo isto penso que a inversão de papeis como alguns lhe chamam, ao contrário do que este último autor designa, permite-nos perceber que a descentralização do nosso “eu” e a compreensão empática é um processo difícil e é vivenciando esta técnica que entendemos que “os versos” da vida têm valores tão subjectivos como o bem e o mal.

Solilóquio

O solilóquio acontece quando o director durante a acção “congela a cena e pede ao protagonista que «pense alto» ou «diga em voz alta o que está a sentir» ”. (Veiga, 2009, p. 143)

Parece ser normativo no ser humano durante as suas interacções no dia-a-dia a utilização de uma comunicação não muito clara. Na verdade, o ser humano discursa o que acha que deve discursar, fala o que se espera falar (é obvio que as coisas não são assim tão lineares) e que muitas vezes não corresponde com os seus sentires ou com aquilo que realmente deseja dizer. Durante o contexto psicodramático estes aspectos perpetuam-se e para tal o director utiliza esta técnica para aceder aos afectos e às percepções internas do protagonista. O director ao aceder a aspectos internos do protagonista poderá dar uma outro nuance à acção recorrendo, se for o caso, a novas ordens aos egos auxiliares.

Passando por esta experiência (não este ano lectivo) senti algum desconforto na medida em que ganhei a consciência que de facto não estava a ser coerente comigo mesmo e que os meus sentimentos em relação à situação eram de revolta. Nos dias de hoje penso que é importante mostrar assertivamente o que sinto sobre determinada situação e ser coerente comigo mesmo (claro que tudo tem que ser bem mediado)

Interpolação de resistências

Durante as acções o director pede aos egos auxiliares para agir de uma forma diferente daquela que o protagonista descreveu, por exemplo: se o protagonista diz que o seu “contrapapel”  é um individuo agressivo o director pede ao ego-auxiliar, sussurando ao seu ouvido, que adopte uma outra conduta contrária. Desta forma, o protagonista vai treinando a sua espontaneidade e criatividade da sua resposta.

Não é menos verdade que somos o que somos na interacção. Se parto da ideia que a pessoa com quem eu estou a interagir é agressiva possivelmente terei uma resposta já condicionada com esta forma de perspectiva-la. Se tenho a consciência que comportamento gera comportamento, se sou conduzido por ideias estereotipadas e preconceituosas, a recriação da relação ganhará um novo sabor.

Espelho

Esta situação ocorre quando o director pede a um ego auxiliar para imitar o protagonista retratando as condutas, a forma de comunicar, etc. com o átomo social. Assim sendo o protagonista vê-se a si mesmo podendo corrigir e melhorar a sua auto-percepção e as suas condutas. “Este tipo de auto-observação pode ser incómoda para o protagonista que se apercebe e se vai corrigindo, obtendo assim resultados imediatos.” (Abreu, 1992 , p. 41)

Em todo o meu percurso sociodramático nunca assisti ao uso desta técnica contudo experienciei uma situação semelhante a esta técnica e que achei bastante importante para a minha formação profissional e até pessoal. Em tempos na minha formação de Animador Sociocultural a docente responsável pela disciplina principal do curso utilizava o vídeo para gravar as apresentações de trabalhos dos alunos de forma a estes poderem auto-percepcionar e melhorar a sua postura para futuras exposições públicas. Achei a técnica utilizada pela docente do curso magnífica na medida em que me ajudou a modificar determinados aspectos inconscientes que tinha durante a exposição treinado e recriando o meu papel.

Duplo

Durante a acção o duplo é utilizado “quando o protagonista está impossibilitado ou tem muita dificuldade para se expressar verbalmente.” (Monteiro, 1998, p. 18) O director pede ao ego auxiliar, durante a dramatização, que coloque a mão sobre o ombro do protagonista e faça um desdobramento do seu “eu”.  O ego auxiliar faz uma interpretação da situação vivencial ou seja, dos sentimentos dos protagonistas, uma melhor clarificação dos conteúdos verbais, “os verdadeiros receios, motivações ou intenções escondidas” (Abreu, 1992 , p. 42) Esta técnica pode negligenciar a fala e utilizar gestos e expressões corporais sendo uma mais-valia, pois a mensagem é pouco clara podendo o protagonista dar asas à sua interpretação não sentido ofendido caso a interpretação do ego auxiliar não corresponda verdadeiramente ao sentido do protagonista.

Representação simbólica

A representação simbólica é utilizada quando, por alguma razão, é impossível trazer para o contexto dramático a situação da vida real, tal como sexo, violência, entre outros. Tenta-se encontrar formas de representar essa situação simbolicamente. Por exemplo, “o caso de um relacionamento sexual. Pode então recorrer-se à representação simbólica, que consiste em convencionar um comportamento equivalente, como um  jogo de mãos, que corresponde ao contacto dos corpos.” (Abreu, 1992 , p. 43)

A dramatização também é ela uma forma de representação simbólica independentemente de não corresponder ao real, “pois elas tentam duplicar factos reais sem com eles coincidirem nem, na maioria das vezes, se lhes assemelharem.” (Abreu, 1992 , p. 83)

Estátua

É habitual o uso desta técnica pelos psicodramatistas encaminhando o protagonista para “esculpir”, utilizando os egos auxiliares ou simplesmente panos, para representar concretamente um sentimento, uma vivência, um valor, entre outros. Posteriormente, e após o término estátua, o director pede ao protagonista para clarificar e explicar a sua “obra de arte” de forma a compreende-la e aceder às representações mentais do «escultor». “Esta técnica associa a audácia da comunicação sincera e criativa, que nem sempre é verbal, à liberdade de interpretação. “ (Abreu, 1992, s/p cit. Veiga, 2009, p. 143)

Role-Playing

“O role playing pode ser usado como técnica para a exploração e para a expansão do eu num universo desconhecido.” (Moreno, 1959, p.157 cit. Veiga, 2009, p.144) Esta técnica, como o próprio nome indica – jogar o papel –   permite ao protagonista desenvolver o seu papel treinando-o num ambiente livre de tensões avançando e retrocedendo a cena sempre que necessário.  São nos contextos dramáticos que os protagonistas preparam-se para a situação real desencadeando a criatividade e a espontaneidade.

Reportando-me para a minha experiência sociodramática compreendo a importância de passar por este processo e por esta técnica na medida em que desenvolvo a minhas aptidões profissionais (contudo as fronteiras entre o profissional e o pessoal tornam-se imperceptíveis) em que cada momento que passo vou recriando a minha relação, vou sentido a necessidade de estar em constante mudança, a estar mais atento ao outro e a estar mais atento às eventuais projecções que faço (face às representações que possuo sobre o outro e que em muito impede respostas criativas).

Quebra de página

O encontro: Educação social no palco sociodramático

Aprendizagens soltas surgem nas histórias de egos auxiliares. No desejo de um encontro e reencontro para alicerçar o aprendizado, os técnicos de educação social (que vivenciaram o papel de ego-auxiliar) falam de um renascimento como energia impulsionadora que permitiu o desenvolvimento destes profissionais enquanto investigadores, profissionais de terreno, técnicos de relação, mediadores de grupo, facilitadores de empoderamento…

Olhando detalhadamente para o Sociodrama e Educação Social encontramos água salobra entre ambas. Estas secreções da criação humana reencontram-se entre o doce e o sal. Jamais quereremos entrar em conflito entre estes saberes, antes, uma reflexão sobre os pontos comuns.

Saem da boca palavras atiradas ao ar: complexidade da realidade; capacidade de se descentrar; modelos de referência; saber perguntar; saber escutar; autorreflexão; criatividade e a metodologia de investigação ação participante (IAP). Todavia estes conceitos carecem de um laço que consolide o seu entendimento.

No sentido figurado de renascimento de que falamos, surgem à luz dois caminhos que se cruzam e que fortalecem o nosso saber – trilho metodológico e teórico – e que as palavras soltas entrelaçam-se em cada uma delas.

Trilho Metodológico  

A sinapse: Sociodrama e Investigação-ação participante

No espaço sociodramático onde os participantes assumem o leme das suas próprias preocupações, necessidades ou problemas a analisar e/ou a tratar, ao invés de uma posição diretiva, expositiva e demonstrativa da parte do diretor, o que nos faz recordar o processo de investigação ação participante (IAP), metodologia de eleição para muitos dos Educadores Sociais – e para tantos outros profissionais cuja fonte surge do paradigma sociocrítico. Embora não seja muito comum a utilização da expressão IAP na linguagem sociodramática pode-se reconhecer uma correspondência perfeita, sendo o palco um espaço de contacto entre estes “neurónios”

A essência da IAP surge do pensamento de Kurt Lewin e que pressupõe três núcleos que estabelecem relações entre eles: “o de ação, que tem como objetivo atingir a mudança social num contexto concreto; o da investigação, centrado na procura das dinâmicas atuais e nas intencionalidades dos atores; e o da formação, que é inerente ao próprio processo de conhecimento e ação, mobilizando as capacidades cognitivas e relacionais dos atores em função de objetivos específicos.” (Guerra, 2000, p. 57).

Se o sociodrama, nas suas ações, pretende alcançar a espontaneidade e a criatividade, rompendo com situações sine quibos non, não estará longe da linha de pensamento de Kurt Lewin. O diretor/orientador assume este compromisso enquanto catalisador da dinâmica grupal. A IAP, tal qual sociodrama, é “uma metodologia que conta com a participação, que recupere a fala dos agentes sociais; todos podem questionar acerca da sua realidade, todos podem dizer algo da sua realidade.” (Cembranos, Montesinos, & Bustelo, 2001, p. 30)Desta forma inicia-se processos de investigação. No sociodrama o grupo é levado a analisar um determinado problema, onde a dimensão afectiva, cognitiva e psicomotora geram motivação, interesse e liberdade. “O sociodrama é, pois, uma metodologia de pesquisa ativa e traz, portanto, as significações presentes nas relações, o discurso compartilhado, e um processo dialógico com intensa troca de conteúdos psíquicos, atitudinais e comportamentais entre as pessoas no propósito conjunto de solucionar determinados conflitos. ” (Nery, 2006, p. 307) São nestes núcleos entre a ação e investigação, compreendendo processos dialécticos, que  se produzem novas formas de ser, estar e pensar.

Trilho teórico

Universos: do real ao imaginário há possibilidade no campo de intervenção

A dramatização é a ação que mais se aproxima da realidade, com a vida, na medida em que permite recriar, simbolizar e representar situações do quotidiano (“como se”) contudo, a dramatização não é a realidade, “ Não se trata de abandonar o universo do imaginário em favor do universo da realidade (…) mas antes definir os meios pelos quais o indivíduo pode adquirir um completo domínio de uma situação, vivendo nas duas vias e capaz de passar de uma para a outra” (Moreno, 1970, cit. Aguilar, 2001)

Neste processo interpessoal que se vivenciou enquanto ego-auxiliar existiram dois domínios que promoveram o nosso crescimento. Se por um lado permitiu-nos contemplar realidades complexas por outro, e a partir das mesmas, facilmente os protagonistas passavam para a realidade bebendo das experiências do contexto sociodramático. Olharemos mais detalhadamente para estes dois domínios:

  1. a) A vivência de narrativas que emergiram nos contextos sociodramáticos permitiram ao educador social, que integra a unidade funcional, compreender realidades que estiveram longe dos seus campos de intervenção. Apesar de existirem contextos idênticos e que de alguma forma conduzem a ideias estereotipadas (algumas certificam-se, outras não) é no contexto sociodramático, que se pressupõe uma relação dialógica, que se quebra com as nossas ideias pré-formadas, as opiniões originais e, fundamentalmente, se olha para as situações a partir de um outro prisma nunca antes considerado. O raciocínio dos protagonistas surge com as emoções e o cruzamento da observação do auditório alarga em muito a perceção complexa da realidade, que teria sido redutora pelo único par de olhos que possuímos. São nestes exercícios contínuos que faz crescer uma visão bio-psicossocial e sistémica das situações e a sua correlação. Por tudo isto, a nossa visão acerca do mundo torna-se mais coerente com as realidades.
  2. b) Quando os protagonistas no “como se” vivenciavam simbolicamente o real na procura de alternativas, de possíveis soluções para os seus problemas facilmente conduziam os seus comportamentos com os insights que vivenciavam no processo sociodramático respondendo (possivelmente) de forma espontânea ao contexto social. Foram muitos os exemplos da mudança nas respostas dos protagonistas (alunos que estavam a desenvolver os seus projetos de intervenção social) que aconteceu porque se prestava atenção a determinados factos, se examinava as partes constituintes, observávamos, criticávamos e comentávamos.

Tudo isto não passa de uma análise da realidade e existe um propósito ao colocar este conceito neste nosso discurso. Entendemos por análise da realidade (comummente designados por fase de diagnóstico) um momento do desenho e desenvolvimento de projetos sociais onde se conta com a elevada participação do colectivo; a relação entre o estudo e a ação, a consideração dinâmica da realidade, a utilidade da informação que se obtém partindo sempre da ação para a investigação e da investigação para a ação, pois,  a “investigação e a intervenção devem estar estreitamente ligadas” (Maisonneuve, 2004, p.16)  tal como acontece no processo sociodramático. Demos ênfase à análise da realidade, a título de exemplo, mas pode ser transversal ao longo do processo dos projetos sociais.

Em boa verdade, vivenciar o papel de ego-auxiliar permitiu-nos desenvolver competências e ganhar consciência que metodologias ativas, como o sociodrama, torna sem dúvida projetos sociais muito mais eficientes e eficazes.

Calçar o sapato do outro

Quando se integra vários pontos de vista com facilidade temos capacidade de colocar mais hipóteses sobre a situação, conseguimos descentrar daquilo que somos e captar a visão do mundo interno da outra pessoa. Antes de sermos educadores sociais, antes de sermos egos-auxiliares, fomos e somos pessoas e a dificuldade de descentração depende da história de vida de cada um e das (re)configurações que fazemos . Se por alguma razão os sentimentos de interesse, dedicação e disponibilidade, por outrem, não estiverem desenvolvidos, possivelmente, teremos dificuldade em nos descentrarmos. Falar na capacidade de se descentrar remete-nos para a empatia (capacidade inata de qualquer ser humano se colocar no lugar do outro) mas, é desenvolvida pela soma de novas estruturas cognitivas que nos permite experienciar de forma renovada e mais autêntica a visão do mundo. Porém, não podemos encerrar este momento pelas aprendizagens intelectuais. É relevante ensaiar internamente reações emocionais geradas pelas situações e tentar perceber o que sentem os protagonistas . São nestes concertos, entre a razão e a emoção, que melhor o nosso pé se adapta para calçar o sapato do outro.

Auto-controlo e Saber Escutar

Foi no “aqui e no agora”, no “como se” facultados pelo processo sociodramático que reconhecemos a pertinência de certas condições interpessoais que consideramos indispensáveis para quem orienta grupos.

Se olharmos ao redor das nossas vidas verificamos movimentos contantes dos modelos convencionais nas instituições socioeducativas, que se colam aos princípios: paternalista, autoritário, dominante e opressor à liberdade humana. Penso que será comum a muitos outros educadores sociais (e a outros actores sociais) que, tal como nós, durante seu desenvolvimento, desde tenra idade, foram habituados a ser simples telas, onde a memorização, o saber-saber, o conformismo e a distancia afetiva dos conteúdos foram a tónica no ensino-aprendizagem. No espaço sociodramático (também ele espaço formativo) em muitos momentos sente-se a vontade de saltar para a boca de cena e dar o cunho pessoal, de sentir poder e afirmação. Talvez estas vontades emergiam na tentativa de reproduzir (consciente ou inconsciente) determinados modelos que nos acompanharam até aos tempos académicos, perpetuando a mesma conserva cultural. Apesar deste “mal-estar” um trabalho contínuo é necessário para que prevaleça uma outra posição que não a culturalmente dominante. Contudo, aprende-se a controlar as emoções, contrariamos posições ganhando a consciência e a compreensão da importância da circulação da comunicação, realçando as informações que o grupo tem sobre uma determinado tema. Para isso, há que ser curioso e saber fazer perguntas (Esmorecendo a tendência interpretativa e acedendo, paralelamente, às representações mentais dos participantes). Todavia as perguntas/ respostas jamais poderão ser duais –  Diretor/ator. É preciso trazer vida à dinâmica grupal e pra tal aconteça o diretor deverá devolver as perguntas ao grupo de forma a favorecer a comunicação, a tomada da perspetiva social, causando possíveis mudanças nos sistemas.

Cientes que o saber escutar “apreendido” durante a formação fica limitado na fronteira do saber-saber, sendo a linha do tempo escassa para o seu progresso, este contexto metodológico contribui, em larga medida, para o seu desenvolvimento. “Ouvir exige, antes de mais nada, que não estejamos preocupados, pois se estivermos, não podemos dar uma atenção plena. Em segundo lugar, ouvir implica escutar o modo como as coisas são ditas, o tom usado, as expressões, os gestos empregos. E mais, ouvir inclui o esforço de perceber o que não está a ser dito, o que apenas é sugerido, o que está oculto, o que está abaixo e acima da superfície. Ouvimos com os nossos ouvidos, mas escutamos também com os nossos olhos, coração, mente e vísceras.” (Benjamim, 1978, p. 68)

Em cada ida para as sessões começámos por colocar os nossos órgãos em sintonia. Percebemos com o coração as palavras trêmulas causadoras tensões internas que ansiavam ser resolvidas. Olhámos para as lágrimas que brotavam angústias traduzindo estados de alma. Ouvíamos desvios de temas que afligiam ganhando formas de resistência. Reparámos nas pequenas  tentativas para abrir a cortina do trama interno, ofuscadas por palavras mascaradas. Observámos corpos ausentes e olhares distantes e cabisbaixos, que vertiam dúvidas causadoras de incómodos. Sentimos o silêncio de reprovação que acompanhavam olhares fechados e olhos sorridentes e abertos de aceitação.

Aos poucos e poucos começamos a encontrar sentido que o saber escutar comporta e as hipóteses que colocavamos, aos poucos e poucos (não fossem as resistências), eram confirmadas ou infirmadas. Percebemos que seria este o caminho para atingir o propósito do saber escutar mas que exige uma prática contínua.

Da proximidade à promoção da participação

Antes de falarmos propriamente do assunto gostaríamos de viajar pelo mundo d’ O Principezinho de Saint – Exúpery. Relembremos a passagem do pequeno príncipe pelo sexto planeta, onde encontra o velho geógrafo e lhe pergunta se sabe se no seu planeta há mar, rios, montanhas, ao que aquele lhe responde: Não faço ideia.

Ao contrário do velho geógrafo o diretor está implicado e faz parte da natureza sociodramática. Relaciona-se com os protagonistas, com o auditório, está próximo dos problemas deles, escuta-os, acompanha-os nas dificuldades, faz circular a comunicação, os pensamentos de forma a acrescentar aos pensamentos novas ideias, estimula a participação para pincelarem um quadro comum, criando assim novas obras de arte.

É nesta situação que reside a aprendizagem, no vivenciar de perto, num formato concreto e exemplar, a prática de  “relações mais informais e menos distantes, aproveitando as aptidões e os conhecimentos para encorajar e contribuir para a participação do cliente.” (Payne, 2002, p.126). Assistimos a relações de proximidade que não deverão ser confundidas com a intimidade e a amizade, pois, pela nossa experiência,  existem  trabalhadores sociais que ao caírem nesse enredo, revelam dificuldades em manter um distanciamento emocional.

Entende-se nesta relação sociodramática uma intervenção desenvolvida com os elementos do grupo, que pretende responder a uma pluralidade de situações reais e afetivas – ao contrário de algumas intervenções sociais pradonizadas sem terem em conta a singularidade e a especificidade do grupo – suscetível de se tornar estéril e pouco estimulante. Esta situação remete-nos para duas preposições: com e para. Trabalhar com as pessoas é, sem dúvida, uma fórmula estimulante de fomento da participação, em que os indivíduos se tornam sujeitos ativos do seu próprio desenvolvimento, ao contrário de um trabalho para, cujas respostas talvez fossem semelhantes às do velho geógrafo.

A propósito destas preposições Paulo Freire faz duas distinções entre a educação bancária e a libertadora. A primeira os “educandos passivos recebem depósitos de conhecimento pré-selecionado e acabado (…) Trata-se de uma prática imobilizadora, reprodutora e ocultadora da realidade”. A segunda, “encoraja os educandos a desafiar e mudar o mundo, e a recusarem adaptar-se a ele de modo acrítico (…)e que através do dialógo, trabalham para o empowerment.”. (Heaney, 2005, s/p, cit Macedo et. Al.,  2001,p. 140)

Para nós, enquanto educadores sociais, identificamo-nos com a metodologia sociodramática que privilegia um trabalho com as pessoas no sentido de desenvolver a sua espontaneidade e criatividade, ao contrário da educação bancária que defende a manutenção do status quo.

Termos tido a oportunidade de desempenhar o papel de ego permitiu-nos observar a forma e o conteúdo da relação estabelecida entre o director e o auditório, adotar (e talvez reinventar) esses modelos, a importância de trazer à dinâmica  grupal os problemas reais , sendo perspetivados como oportunidades, promovendo, paralelamente a participação.

Conclusão

Desempenhar o papel de ego-auxiliar permitiu-nos estar mais familiarizado com os conhecimentos básicos da nossa formação, a sistematiza-los e a integra-los. Entre sucessivos movimentos entre a ação e a reflexão emergiram à consciência determinadas competências contribuindo para o nosso crescimento profissional, social e pessoal.

Foi no “aqui e no agora”, no “como se”, facultadas pelo processo sociodramático que reconhecemos a pertinência de certas condições interpessoais que considerámos indispensável para quem orienta grupos.

E  para quem orienta grupos, assim como nós, educadores sociais, a importância de partir de situações concretas  para fazer emergir todo um tecido cultural e social do qual os indivíduos são parte integrante. Com isso, tentar capacitar os indivíduos, dando-lhes oportunidade de participarem – a serem pintores dos seus próprios quadros – desenvolvendo, simultaneamente, a comunicação intergrupal favorecendo a consciência crítica sobre a complexidade humana podendo conduzir a respostas espontâneas e criativas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s