MINOM-ICOM | Social Museology: Poetic and Political in Movement from Concrete Experiences – XVIII International Conference of MINOM

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A besta humana

Precisamos afirmar nossa condição humana, somos todos/todas iguais, nascemos para ser livres e partilharmos a vida em sua plenitude.
Vale ler o texto abaixo de Fernando Horta:
” Uma das mais sórdidas ferramentas que o ser humano tem contra outro é a desumanização. Toda a nossa sociedade foi erigida dentro da perspectiva que somos todos humanos. Todos oriundos dos mesmos descendentes. Todos feitos da mesma matéria, com os mesmos cromossomos e – depois do século XVIII – admitimos que temos todos os mesmos direitos. Não vou fingir que desconheço a realidade, ou a luta que houve para que os pressupostos humanistas do século XVIII viessem a se transformar nos “Direitos Humanos”. Não vou desaver toda a luta atual para incrementar e defender a humanidade no século XXI. É claro que no mundo real as pessoas não são iguais. Nem no nascimento e em nenhum momento deste caminho até a morte. Mas a pergunta é: deixam de ser humanas?

A desumanização do outro é uma ferramenta comum do ser humano. Normalmente, colocamos pessoas dentro de substantivos coletivos e adjetivamos de forma pejorativa: corja, bando, cambada e por aí vai … usamos adjetivos substantivados como os terroristas, os aproveitadores, as putas, os canalhas … Usamos neologismos com o mesmo efeito, as bixas, os lgbt, os petralhas, os evanjegues … A lingua desmumaniza antes que os olhos possam verificar o que, de fato, é aquilo.

Na História isto é muito antigo. “Os cristãos” viveram este processo. E de imediato nem a Paixão de Cristo foi capaz de infundir humanidade naqueles que acreditavam em Jesus, aos olhos de seus detratores. Depois, a própria Igreja Católica usou este expediente a seu favor, eram os “hereges”, os “mouros”, os “pecadores” … Não eram, afinal, seres humanos. Dotados de racionalidade, de sentimentos e de uma história por trás. Não deviam ser entendidos, compreendidos ou mesmo aceitos. O objetivo da desumanização é construir uma barreira psicológica e cultural que impeça que se veja o outro. Que se sinta e entenda o outro.

O fascismo fez isto de forma quase perfeita. Separou, marcou e vestiu judeus a quem só era permitido o ódio. Violentou, obrigou a trabalhos desumanos e por fim exterminou quando já estavam despidos de humanidade. Por mais brutais que sejam os seres humanos, ainda há um sentimento de espécie que nos une. A desumanização visa acabar com isto. Não se conversa com não-humanos. São bestas, figuras selvagens que devem ser evitadas ou combatidas.

O ocidente criou a imagem da “Cortina de Ferro”, mas a desumanização veio também por meios culturais ocidentais. O “comunista” permitiu que até crianças, jovens e mulheres fossem torturados, estuprados e mortos por toda a América Central e do Sul. No Brasil, alguns defendem até hoje que “fizeram o certo”. Ainda completamente alheios de que torturaram seres humanos. Estupraram mulheres e crianças. Mataram pais e filhos, que tinham famílias, vidas, história e todo um tempo neste mundo.

É característica básica da ação social fascista é a desumanização. O “corrupto” não merece nem as garantias da lei. O “comunista” não tem direito a qualquer coisa que não o desprezo e a violência. O “não nacionalista” é um desgraçado que merece o escárnio e a agressão verbal, física e simbólica. Aquele que não defende o que eu, fascista, defendo é um inimigo e como tal deve ser tratado. Um selvagem, um monstro que me ameaça pela sua simples existência. A ele devo, de todas as formas possíveis, a violência.

No entanto, desde as primeiras sociedades uma cena, um momento nos humaniza a todos. É símbolo sacro em toda e qualquer religião. É parte de todas as tradições mais antigas e mesmo nas mais modernas: alimentar-se. Não é à toa que Cristo come com seus discípulos. Que Moisés partilha do maná no deserto, e que o Iftar é tão festejada no Ramadã. Não há quase nenhuma celebração humana que não remeta ao ato de comer, na maioria das vezes em grupos, demonstrando que partilham do mesmo alimento, partilham da mesma essência e são todos, portanto, humanos.

Nas regras de boa convivência atuais, criamos o “brunch”, o “chop com os amigos” e toda uma sorte de cerimonias gastronômicas que vão desde o Natal até os chocolates da Páscoa … tudo aponta para nossa origem. O momento sagrado em que todos partilhamos das mesmas necessidades, das mesmas oportunidades e ficamos felizes por isto. O genial Manuel Bandeira mostra – ao avesso – esta importância. Quando se dá conta da humanidade daquele que come, apesar do que ele está comendo:

Vi ontem um bicho
Na imundíce do pátio
Catando comida entre os detritos

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato
Não era um rato

O bicho, meu Deus, era um homem.

(Manuel Bandeira, O Bicho, dezembro de 1947)

Na forma como se alimentava estava a certeza de que era um “bicho”. A exclamação do poeta, com a descoberta de que era um homem, vem no “meu Deus”. Se perguntando um “como pode ser?”, chocado com o “como é”. A profanação do alimentar-se é impensável para a composição do ser humano. Ainda que se saiba que há fome no mundo, “alimentar-se” nos faz humanos. “Tomai todos e comei” é uma das coisas que dá sentido à Eucaristia. É o “comei”, mas um “comei todos” e todos “comei da mesma coisa”, partilham pela boca da mesma essência.

João Dória Júnior avança mais um degrau na bestialidade humana com a forma que vem tratando os desafortunados na cidade de São Paulo. Não bastou retirar-lhes as posses e cobertores em pleno inverno, para que tivessem ainda mais dificuldade de defender suas vidas das mais básicas forças da natureza. Não bastou retirar-lhes o direito de ir e vir instruindo a polícia a tratar com violência SERES HUMANOS em situação de rua.

Agora é preciso desumanizá-los até no ato da alimentação. É preciso dar-lhes restos e sobras, em forma animalesca, para que fique claro que deixaram de ser humanos. Nenhum cristão, judeu, muçulmano ou de qualquer outra religião pode aceitar tal absurdo, que atenta contra os símbolos mais sagrados de tudo o que se ensina há mais de 4000 anos. Come-se na mesma mesa. Come-se das mesmas coisas. Come-se com os semelhantes, porque esta é uma das coisas que nos faz semelhantes.

De Dom Quixote ao Rei Arthur, sempre o maior sinal de honradez, de fidalguia era reforçar os laços de humanidade:

“Para que vejas, Sancho, o bem que em si a andante cavalaria encerra e quão perto estão os que em qualquer ministério nela se exercitam de ser honrados e estimados do mundo, quero que aqui a meu lado e em companhia desta boa gente te sentes, e QUE SEJAS UMA MESMA COISA COMIGO, que sou teu amo e natural senhor; QUE COMAS DE MEU PRATO E BEBAS POR ONDE EU BEBER, proque da cavalaria andante se pode dizer o mesmo que do amor se diz: QUE TODAS AS COISAS IGUALA”

(Miguel de Cervantes, Dom Quixote de La Mancha, Do que sucedeu a Dom Quixote con uns cabreiros)

As elites brasileiras são monstruosas. São bestiais em si mesmas.”
Fernando Horta.

“Inclusão”, liminaridade e precariedade científica (II)

Blogue ATS

Por Paulo Granjo

(Continuação do post publicado a 4 de Outubro)

Verifiquemos, então, em que medida esta proposta teórica poderá ser útil para compreender um processo de inclusão em curso e a negociação social nele envolvida: a regularização da precarização científica estrutural.

3 . Quando o precariado científico “não existia”

Tendo em conta o contraste entre essa situação e a atual, deveremos começar por focar a atenção no tempo recente, há menos de 2 anos, em que o precariado científico «não existia».

Claro que existia precariedade científica, abrangendo aliás 70% d@s investigadores trabalhando no país, sob 6 diferentes situações de vinculação laboral, concretizadas através de bolsas e de contratos a termo certo ou incerto. Contudo, para utilizar uma expressão clássica na análise de classes, constituíam um grupo “em si” (pela sua situação objetiva), mas não um grupo “para si” (segundo a sua perceção subjetiva).

Esse quadro resultava em grande medida…

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“Inclusão”, liminaridade e precariedade científica (I) — Blogue ATS

Por Paulo Granjo 1. Inclusão: uma falsa ideia clara “Inclusão” tornou-se uma palavra-fetiche, omnipresente quer no discurso político vago e bem-intencionado, quer nos cadernos de encargos para o financiamento de pesquisas sociais. Como qualquer palavra que utilizemos, pretendendo que seja mais do que um som, está associada a noções e ideias, por vezes muito variáveis. […]

via “Inclusão”, liminaridade e precariedade científica (I) — Blogue ATS